Entre amigos e amores: Censura!

Toda e qualquer luta ou empenho em criar alguma coisa nova especialmente na arte encontra barreiras do preconceito e do medo do novo, resultando às vezes em rejeição e até  violência. Foi assim com a minha carreira quando eu comecei a fazer ensaios mais autorais que tinham um grau de profundidade e uma proposta estética diferente e requintada sobre o tema da diversidade sexual e de gênero. E o que eu iria mostrar naquelas imagens eram coisas que não tinham sido vistas antes na fotografia brasileira. Então minha expo Entre amigos e Amores os espaços LGBTI +do Rio de janeiro foi censurada e cancelada. 

Nesse meu primeiro ensaio mais autoral  fotografei 17 espaços lgbt+ diferentes indo da favela da rocinha á baixada fluminense.17 estilos de vida, 17 níveis sociais, 17 geografias diferentes. Isso aconteceu num momento onde ainda não havia câmera no celular e as câmeras digitais eram precárias. E ninguém absolutamente ninguém puxava uma câmera e fazia imagens dentro dos espaços LGBT+. Era um tabu e proibidíssima qualquer tentativa de fotografar tanto pelas gerencias dos locais quanto pelo público que entrava em pânico.

Da mesma forma era um tabu na fotografia brasileira fazer um ensaio fotográfico com essa temática, de uma maneira aprofundada. O máximo que existiam  eram as revistas com fotos dos bailes gays onde as travestis e pessoas montadas posavam pras câmeras e isso era pauta de revistas hetero da grande imprensa que vendiam um carnaval exótico e erótico.

Meu ensaio mostrava a comunidade lgbti+ não espalhafatosa, nem ridícula, nem exótica cada grupo com seu estilo e a forma como eles socializavam e viviam seu afeto. Já tinha o trabalho pronto e decidi que seria exibido sobre forma de projeção. Entao comecei a procurar os lugares para expor mas nenhum centro cultural, nenhuma galeria, nenhum espaço expositivo aceitavam essa temática.

É bom lembrar que lutando pra expor eu abri um espaço que hoje em dia as pessoas LGBTI+ se beneficiam. Só havia espaço para medalhões internacionais como Mapplethorpe em exposições com temática homoerótica. Eu tive a promessa que se arrumasse algum lugar para expor seria incluído na programação do FotoRio Festival Internacional de Fotografia do Rio. Então um amigo meu que tinha contatos da Alerj me levou para ver o prédio administrativo da Alerj que ficava em frente do CCBB. No primeiro andar do prédio havia um salão amplo e lindo todo envidraçado achei que podia fazer a exposição ali,  mesmo porque o lugar era um pouco escuro e facilitava a projeção.

Marquei uma entrevista e falei com a pessoa que era responsável, expliquei a obra em minhas palavras deixei um cd-rom com o PowerPoint das imagens e os textos de apresentação que eram da Heloísa Buarque de Holanda e  Andreas Valentim.

Mais adiante fui chamado e o funcionário da administração me disse que viu o ensaio e que era bonito, não tinha havia demais, apenas umas cenas de beijo, que já estavam se tornando comuns em alguns lugares do Rio e então ele aprovava a exposição.

Nós marcamos as datas e a Alerj iria entrar na produção com o projetor, o telão e imprimir um convitezinho. Eu me encarregava de fazer a divulgação. Felizmente tive a malicia de pedir para o funcionário me dar um documento onde estivesse escrito tudo que havia sido combinado: que eu faria o Entre Amigos naquele local em tal data, a Alerj emprestaria o projetor, a tela, imprimiria os convites e haveria uma inauguração dia tal. E ele me deu o documento.

Mas depois de tudo acertado a pessoa sumiu e não fez contato. Ficou totalmente incomunicável e eu não conseguiria acessar. Quando chegou a véspera da inauguração me chamou e disse que a exposição estava cancelada. E essa censura e cancelamento significava também que eu tinha perdido a chance estar participando do Foto Rio, fato que me abriria portas.

Então eu fiquei desesperado e fui pedir ajuda na Comissão de Direitos Humanos na OAB,  fui na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, fui em um escritório de um parlamentar que se dizia apoiador das minorias implorando ajuda, fiz tudo ao meu alcance e nada. Ninguém se moveu pra me ajudar.  

Mas eu tinha um fotolog (que era o bisavô do Instagram) com imagens  dos meus ensaios com temática lgbti+ e como não havia nada igual na época, o acesso  era uma loucura: eu tinha 500 mil pageviews em 6 meses. Mas não ganhava um centavo pois não tinha patrocinador interessado naquele conteúdo. Mas esse público eram de fãs que me apoiavam e nós fizemos uma protesto virtual pela internet.  Foi combinado que iriamos mandar um banner virtual com protestos escritos através de e-mail para caixa de e-mail do presidente da Alerj. E assim foi: centenas de e-mails entupiram a caixa de e-mail que ficou travada e ele não conseguia mais usar. Puseram um anúncio para pararem de mandar e-mails que não foi obedecido.

Finalmente consegui fazer as coisas andarem: a imprensa gay também apoiou  dando  notas denunciando. O protesto virtual da comunidadeLGBTI+ repercutiu na internet. Meus colegas gays da redação do O Globo vieram me procurar e eu contei exatamente  tudo que havia acontecido, mas principalmente enviei o documento que haviam me dado na Alerj que comprovava a  exposição.  

Então pra fazer a matéria eles tinham que ouvir a outra parte: o funcionário fez o favor de dizer que era tudo mentira, que não havia exposição nenhuma marcada, que não tinha aparelhagem  a ser emprestada,  nem  flyer impresso etc etc. E ficou clara a má fé, a censura e o cancelamento pois os jornalistas tinham em mãos um documento assinado  e carimbado da ALERJ que dizia exatamente o oposto disso.

 Então O Globo me deu quase meia página expondo a censura. A matéria gerou muitos protestos da sociedade e da política. Foi uma confusão na alerj e no final convocaram Heloneida Studart, uma feminista histórica e parlamentar com inúmeros mandatos, tendo sido inclusive presidente da comissão de direitos humanos da alerj, para ser a mediadora desse embate.

Eu estava me sentindo tão humilhado,  tão pequeno, sem apoio político  nenhum diante de uma instituição tão poderosa como a Alerj, mas eu precisava muito expor,  passei um ano fotografando Entre Amigos e A mores superando todas as dificuldades. Estava ali me sentindo um nada, quando Heloneida virou para mim e falou “Meu filho você está aqui porque tem força de caráter. E é que nem eu. Meus pais não queriam que eu saísse do nordeste e viesse para cá fazer carreira política. Espaço de mulher era casando e cuidando da casa e filhos. Eu vim e venci. Você vai fazer essa exposição aqui e vai ser um sucesso.

Heloneida Studart feminista histórica que durante muitos anos foi presidente da comissão de direitos humanos da ALERJ e apoiadora dos LGBTI+ e também curadora do espaço cultural da ALERJ, decidiu que a exposição Entre Amigos e Amores, iria ser exposta na ALERJ. 


Cartão postal produzido pela ALERJ

Pedro Stephan na entrada do Centro Cultural da ALERJ

Entre Amigos & Amores: Point gay na rua Farme de Amoedo em Ipanema 

Vernissage

Andreas Valentin, Pedro Stephan e Milton Guran na vernissage FotoRio 2007 na ALERJ

Jean Wyllys e Pedro Stephan na vernissage do FotoRio 2007 na ALERJ

Horácio Costa, Pedro Stephan, Heloneida Studart, Milton Guran, Andreas Valentin e Katia Chavarry na vernissage do FotoRio 2007 na ALERJ

Entre Amigos & Amores no Centro Cultural da Justiça Federal no Rio de Janeiro

Depois da première do Entre Amigos e Amores no Centro Cultural da ALERJ  achei que aquela exposição do ponto de vista de integração com o público tinha sido insuficiente. 

Apesar de toda a publicidade por ter sido uma exposição revolucionária na fotografia brasileira e na foto do Rio e da luta para que o cancelamento e a censura cessassem. As pessoas vieram reclamar que na portaria da do prédio anotavam a identidade e cpf do público uma coisa sensível em se tratando da temática naquela época.  E os seguranças faziam cara feia. Houve muitas reclamações de que aquela atitude deixava as pessoas constrangidas e intimidadas. Eu achei que a exposição tinha o potencial para ser exibida ainda no Rio, num lugar acessível.

Pensei alto: Centro Cultural da Justiça Federal que é voltado em parte para fotografia. Haviam lançado um edital e eu entrei no concurso fiz todo percurso e ganhei para que a exposição pudesse ser exibida por dois meses lá .

 Assim que saiu a resposta fiquei sabendo que além das questões estéticas e artísticas, a temática da exposição criou um debate dentro do centro cultural: se aquele tema  servia para ser exibido naquele lugar. E fiquei sabendo que foi decidido numa mesa redonda voto a voto, e eu ganhei.

 Nós caprichamos na parte do lançamento aproveitando a visibilidade que ela já tinha e isso catapultou a exposição. O fato do Centro Cultural ser muito acessível por estar de frente para o metrô Cinelândia abriu as portas para a visitação do grande público. 

Também tive uma ajuda tanto da grande imprensa: as mega colunistas que me apadrinharam: Hildegard Angel  e Heloisa Tolipan do Jornal do Brasil, o jornal Tribuna da Imprensa que dedicou uma página inteira á exposição, e tivemos uma coluna inteira do O Globo feita pelo jornalista Ronald Villardo. A imprensa gay que estava no auge com a famosa G Magazine me deu uma nota com fotos, o site Mix Brasil com milhões de pageviews fez uma matéria e  A Capa e todas os outro sites e revistas LGBT deram destaque imenso. 

Na inauguração eu tive o auxílio luxuoso de pessoas importantes como o poeta Antônio Cícero, Jean Willis, Dani Carlos e o pintor Vitor Arruda que me honraram com sua presença. Cicero, Jean e Dani fizeram uma performance lendo poemas homeróticos na escadaria  do CCJF isso foi imagem e notícia na imprensa.  

Posso dizer que a exposição explodiu acabou ficando 3 meses em cartaz, foi recorde de público do CCJF saindo em toda a imprensa. Isso foi um grande feito na fotografia carioca e na fotografia brasileira. Uma exposição com essa temática sem o marginal , sem submundo, sem o exótico, sem droga nem o erótico falando das pessoas e do estilo de vida da comunidade LGBT para a própria comunidade, que precisava de se ver, e para o grande público que tinha uma ilusão de que os espaços LGBT eram um submundo.

Vernissage

Pedro Stephan e Antonio Cícero na entrada da exposição no CCJF

Texto da curadora Heloisa Buarque de Holanda 

Pedro Stephan é pioneiro na fotografia etnográfico-poética urbana brasileira de acento ativista. Nesta exposição, seu mais recente trabalho, faz o mapeamento geopolítico dos espaços de socialização GLS no Rio de Janeiro.  Seu olhar entretanto denuncia que o que lhe interessa aqui não é apenas o  – já em si importante – levantamento dos pontos de encontro e socialização da comunidade homossexual carioca. Pedro vai mais longe. O que vê e nos leva a ver através da delicadeza de sua câmera e de sua poesia são, na realidade, a textura densa dos contextos destes encontros entre amigos e amores do subúrbio à zona sul. São os subtextos da diversidade e da riqueza dos espaços de encontro GLS populares, ricos, jovens, idosos. Entramos em casas noturnas, bares, boates e clubes. Viajamos pela Lapa,  Copacabana, Ipanema, Rocinha, esquinas, recantos, interiores. 

São ao todo 100 fotos nas quais Pedro Stephan reafirma definitivamente sua enorme sensibilidade fotográfica, seu compromisso com a causa homossexual e seu obstinado desejo de nos oferecer um mundo melhor e mais justo.

Jean Wyllys, Danni Carlos, Pedro Stephan e Antonio Cicero no CCJF

Texto do curador Andreas Valentin

É proibido proibir, dizia Caetano lá pelos idos de 70. Duzentos anos antes, os franceses clamavam por liberdade, igualdade e fraternidade. Hoje, em pleno século XXI, o proibido ainda é perigoso e o liberto carrega uma multiplicidade de significados. Em suas fotos reunidas na projeção Entre Amigos & Amores, Pedro Stephan faz uma penetração explícita para revelar alguns desses perigosos significados.

Mergulhando na noite carioca GLS, com a luz de suas provocativas imagens digitais, ele nos conduz pelo escurinho do interdito. Nos espaços chiques da zona sul, passando ali pelas boates tradicionais, pelo baile gay da Rocinha e chegando ao Buraco da Lacraia, escancaram-se as portas da transgressão. No grupal da dança, no íntimo do cantinho, no secreto dos bastidores, somos flagrados pela diversidade naquele mundo que achávamos ser homo-gêneo. Descobrimos, então, os senhores de terceira idade, os rapazolas, os jovens bem-sucedidos, as moças e mocinhas elegantes e escrachadas. E, reinando soberana, no camarim da Turma OK, Luana, a guardiã de todos os perigos. Como contraponto, temos, ainda, o amor às claras, corpos seminus no Love Boat em meio à deslumbrante paisagem natural do Rio de Janeiro.

Subexpostas, granuladas, estouradas, desenquadradas, as fotografias de Pedro são transgressoras também na sua forma. Porque, onde nada é proibido, permite-se e provoca-se a experimentação, nos mais variados sentidos. Projetadas em uma sala escura, seqüenciadas e ritmadas, elas adquirem ainda mais força. Aproximam-se, assim, do cinema, ou melhor, do quasi-cinema de Hélio Oiticica.

Para além da sala de exibição de obras de arte, esse trabalho pioneiro, fruto de pesquisa realizada ao longo de vários meses, incorpora, ainda, grande importância como estudo antropológico de uma minoria estigmatizada e alvo de preconceitos e deboches. Dessa forma, contribui também como suporte para uma necessária reflexão social e política sobre o tema.

Andreas Valentin

maio 2007

Pedro Stephan com o Pintor Victor Arruda no CCJF

Performance de leitura de poemas homoeróticos no CCJF Antonio Cicero recita poema

Performance de leitura de poemas homoeróticos no CCJF Jean Wyllys recita poema

Performance de leitura de poemas homoeróticos no CCJF Danni Carlos recita poema

Clipping

Entre Amigos & Amores nos festivais de foto do Brasil

Festival FotoArte de Brasília

Entre Amigos e Amores foi convidado a seguir para participar do Festival Foto Arte de Brasília e foi uma honra expor na sala Renato Russo que abrigou a exposição sobre forma de projeção. Lá também houve grande presença de público.

Catalogo Festival FOTOARTE de Brasília

Jornal do Grupo Somos de Conscientização Homossexual

Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre

Entre Amigos foi convidado a participar do badalado Festival de Foto de Porto Alegre e a exposição repercutiu no FESTFOTOPOA  igualmente sob forma de projeção. Lá também atraiu muito público e fez sucesso.

MAC USP Ibirapuera

As exposições no Rio repercutiram muito pela imprensa LGBT+ e pela grande imprensa, na época eu era a única pessoa que estava produzindo um portfólio com a temática da diversidade. Então a ABEH Associação Brasileira de Estudos de Homoerotismo fez um grande congresso  nacional sobre a produção acadêmica LGBT+ que estava vigorosa naquela época: havia muitos trabalhos, livros, muita produção acadêmica. 

E eles resolveram fazer além das conferências uma exposição de artes plásticas que seria no MAC USP Ibirapuera onde era a sede do evento. Fui convidado a participar com o Entre Amigos. Além de mim a Colecçion Visible, uma grande coleção de arte LGBT espanhola com sede em Madrid e apresentou inúmeras obras. 

Eu trouxe umas seis fotos tamanho médio emolduradas e a exposição continuava a ser sob forma de projeção com mais de 100 imagens num grande monitor. 

A  exposição ficou três meses em cartaz e foi recorde de público. Apesar da montagem ser modesta a força daquelas imagens todas atingiu o público e foi um sucesso. Tive apoio da imprensa que além da grande exposição que veio de Madrid falou também da minha e da importância dela.

Vernissage MAC Ibirapuera João Silverio Trevisan e Stephan Stephan

BABADO NO MAC USP IBIRAPUERA
Uma coisa curiosa que aconteceu durante os três meses que minha exposição ficou no Mac Usp Ibirapuera: começaram a ligar para lá para tentar fazer pressão constranger e provocar. Ligavam e falavam “É aí que a exposição das bichas?” ou então “É a exposição dos travecos?” etc, Os funcionários que trabalhavam lá ficaram muito sem saber o que fazer, pois eram ligações incessantes.
Então me chamaram e me perguntaram o que deveriam dizer eu respondi “Se ligarem e perguntando ‘É aí a exposição das bichas?’ podem responder “Sim é aqui a exposição das bichas” ou então ‘É aí a exposição dos veados?’ podem responder “Sim aqui no Mac fica a exposição dos veados”.
Eles não gostaram muito e decidiram que que deveriam responder “Aqui é a exposição da diversidade” uma resposta mais diplomática com certeza

Festival Visible em Madrid Espanha

Pablo Peinado curador da Colecçion Visible se encantou e com a minha obra, e me convidou para expor no Festival Visible em Madrid só que dessa vez ele queria que fossem expostas imagens impressas, e eu obviamente fiz a exposição dessa maneira, pela primeira vez. 

Levei o ensaio para Madri expus no no Espaçio F uma galeria que pertencia a Escola de Belas Artes de Madrid.  Não fui com muita expectativa, não sabia se  aquelas imagens de um lugar tão distante como Rio e o Brasil  fossem interessar àquelas pessoas, ainda mais  porque não havia erotismo nas imagens, não havia um apelo.

Mas para minha surpresa, logo no primeiro dia, cheguei cedo na galeria e vi muitos flyers espalhados por todo o lounge que ficava em frente á galeria. Achei que fosse algum tipo de rivalidade. Mas já havia público na exposição e logo em seguida começou a chegar muita gente, não eram só LGBT+ mas muitos héteros, casais héteros com crianças e a comunidade LGBT+ de Madrid. Esse fluxo não parou o dia inteiro. Quando eu vi que que aquilo estava acontecendo logo no primeiro dia da exposição eu fui rápido ao hotel onde eu estava hospedado, peguei a câmera e registrei a presença do público. A exposição também fez um sucesso muito grande em Madrid e eu tenho orgulho disso.

Clipping

Luana Muniz, a rainha da Lapa na Revista Global

O ensaio “Luana Muniz a Rainha da Lapa” na verdade nasceu dentro de “Entre Amigos e Amores”, não foi planejado mas simplesmente aconteceu. Achei que deveria fotografar a Turma ok que foi o primeiro clube social  LGBT+do Brasil, criado nos idos de 1960 e fui até lá para fotografar. Eles faziam shows de dublagem LGBT, apresentação de drags, shows, tudo muito dentro da cultura LGBT. Mas quando cheguei lá havia uma despedida de solteiro de pessoas hetero e o clube foi alugado para isso. Nenhum hetero queria aparecer de maneira nenhuma. Eu já ia embora, quando tive a ideia de ir para o camarim e começar a fotografar os artistas.

No camarim fiz já inicialmente algumas fotos dos artistas e a Luana estava lá entre eles.  Porém logo ela roubou a cena e eu tive a ideia de fazer uma foto das costas dela nuas, e a parte da frente nua aparecia num espelho lá no fundo muito desfocado.  A câmera digital exibe imediatamente a imagem criada e quando vi o resultado as imagens daquele set foi um impacto imenso e imediato.

 Então eu peguei a Luana e a levei para o salão anexo que não estava muito iluminado e fotografei-a ali mesmo se montando. E sem saber fiz uma foto muito significativa porque nas paredes desse salão tinham as fotos das “rainhas da primavera” que foi o primeiro evento cultural  da comunidade LGBT+ no Rio e no Brasil. Na parede atrás de Luana haviam fotos de inúmeras rainhas da primavera ao longo dos anos e intuitivamente pus Luana sentada meio seminua na frente daquelas fotos todas. 

A imagem que consegui  mexeu comigo. mas eu não tinha ainda ideia do significado daquela foto. Mas quando eu cheguei em casa e vi o resultado do pequeno ensaio decidi que era ela que eu iria fotografar. E fui atrás disso durante três anos. 

 Mas primeiro eu tinha que convencer a Luana a posar pra mim. Fui na Turma OK e ela não estava, na saída passei na r Mem de Sá e ela estava na calçada “fazendo pista”. Eu me dirigi a ela dizendo que gostaria da fotografá-la ali no exercício da sua profissão etc. Ela gostou da ideia e disse “ah vamos marcar” e respondi “marcar nada, vamos começar agora” tirei a câmera da mochila e saí fotografando. 

Então rolou aquele “efeito flash” ( todo artista de verdade você começa a fotografar elas se aquecem e performam) ela se empolgou e posou muito bem. Eu fotografei muito intensamente e depois cansei. Parei para conferir as imagens e quando olhei atrás de mim havia pelo menos uns quatro marginais ali que nem abutres doidos pra pular no meu pescoço. 

Olhei desesperado pra Luana que se dirigiu a eles “Estão olhando o que aqui? Vão dar uma volta. Vai! Vai!” E eles foram! Em seguida virou-se pra mim e disse “vou posar pro seu trabalho e aqui nesse quarteirão EU TE GARANTO. Você pode fotografar o que quiser. Mas nas outras quadras adiante você tome um táxi e vá embora pois não é meu território.”

Essa experiencia foi um rito de passagem pro mundo da Luana e da prostituição trans da Lapa.

Fotografei não só a Luana mas o espaço onde ela reinava e a também a sua trupe: o conjunto de pessoas que ela comandava e cuidava. O resultado disso foi  esse ensaio “Luana Muniz a Rainha da Lapa”.

Depois de ter estado quase um ano fotografando Luana & colegas, nas suas atividades noturnas, vi que ela estava um pouco cansada e sem entender porque tantas fotos, durante tanto tempo. Não estava entendendo o que era aquilo. Ainda não tinha me manifestado verbalmente esse cansaço, mas eu estava com medo que ela parasse de posar e retirasse a autorização pro ensaio continuar.

 Eu ainda tinha um longo percurso até conseguir criar uma linguagem fotográfica que traduzisse aquilo tudo que estava ali na minha frente. Então eu procurei o Marcos Bonisson que é meu guru e meu mestre, expliquei a situação e ele virou-se para mim e disse que  tinha que fotografar muito mais. Mas eu respondi que não tinha como, pois via que Luana já estava se cansando e mais cedo ou mais tarde ela ia dizer que não queria mais que fotografasse. 

Então ele me falou que procurasse uma revista onde eu pudesse exibir aquelas fotos. Então ela se visse iria entender o objetivo da minha atividade. Se eu conseguisse isso, todas as dificuldades iriam acabar e ela iria se abrir para o que eu estava propondo.  

Não havia nenhuma revista comercial que iria colocar aquelas fotos. Era impossível. Mas meu grande amigo o artista plástico Ronald do Duarte, era um dos editores da Revista Global uma publicação da Open University versão brasileira. 

Fui atrás dele submeti aquele trabalho e eles se surpreenderam. Finalmente a Revista Global teve a capa e a contracapa com uma foto do meu ensaio “Luana a Rainha da Lapa” e o miolo também com imagens minhas e um texto.  

Naquela época ainda não tinha criado uma linguagem, com um estilo que pudesse representar o objeto do meu ensaio. E ainda não sabia para que lado eu ia levar as imagens. E passaram-se ainda dois anos até que eu conseguisse finalmente ter o ensaio pronto. 

Mas ainda em 2007  finalmente a revista global foi lançada eu levei a Luana e Silvão um homem trans no lançamento na livraria do cine Odeom. Então tínhamos no lançamento uma mulher TRANS e um homem TRANS naquela época um homem transmasculino era uma coisa do outro planeta. O lançamento na livraria  foi um sucesso, Luana chegou gloriosa e causou. Ela ficou muito satisfeita de estar naquela revista e a partir daí a confiança que já tinha em mim aumentou imensamente. Não ficou mais ansiosa ou desconfiada pois sabia que eu ia conduzi-la para um lugar legal um lugar bom.

Lançamento da Revista Global na Livraria do Cine Odeon na Cinelândia


Premiere da Exposição Luana Muniz, a rainha da Lapa na Galeria LGC Arte Contempôranea no FotoRio 2009

Em 2009 o ensaio chegou a um ponto que eu achei que estava pronto para ser exibido. E então na época do FOTORIO mais uma vez fui lá bater na porta deles e me disseram que se eu tivesse um lugar para exibir a obra, eu estaria dentro do festival.

Então sai mais uma vez atrás de um espaço e mais uma vez ninguém queria exibir o meu trabalho. O Entre Amigos e Amores que era tão suave e inocente, foi censurado, imagina um ensaio sobre uma cafetina que comandava a prostituição na rua Mem de Sá da Lapa.

Saí batendo de porta em porta mas não consegui nada. Então mais uma vez o meu guru Marcos Bonisson me indicou uma galeria cujo dono era um advogado que tinha uma coleção maravilhosa de arte e não estava preocupado se iria mostrar uma coisa palatável para ser para ser consumida. 

Então eu fui atrás do sr  Eduardo Gama. O escritório dele era num loft gigantesco forrado de obras de arte incríveis. Expliquei o meu trabalho e então ele pediu para eu por no meu ensaio sob forma de papel numa mesa gigantesca que tinha no escritório . Eu coloquei e quando ele viu o ensaio ficou completamente impactado pela força daquelas imagens e pela narrativa que eu consegui imprimir. Falou que eu iria expor com certeza na galeria dele mas seriam umas poucas imagens. 

Tive que aceitar pois era uma galeria pequena mas muito bem situada e muito bem conceituada. Porém dias depois nós fomos fazer uma reunião de produção no escritório ele me disse “ mudei de idéia: você vai ocupar toda a minha galeria. Não vão ser apenas algumas imagens você vai expor a obra integral”. Acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida e eu comecei a preparar a exposição.

Na véspera da inauguração da exposição especialmente por causa dos montadores que faziam as principais exposição do Rio, e quando gostavam muito de uma exposição saíam elogiando a boca pequena. E começou a rolar uma curiosidade no meio e as pessoas vinham ver a exposição sendo montada do lado de fora pois a entrada da galeria era toda envidraçada e dava pra ver tudo la dentro. Isso me incomodou ao ponto de mandar cobrir todas as obras porque a exposição era pra ser vista apenas na vernissage.


Procurei meus colegas da imprensa que tinham me dado toda força com Entre Amigos e Amores e fui pedir ajuda para eles na divulgação etc. Mas jamais os dois grandes jornais do Rio de janeiro iriam expor foto de travesti que não fosse Rogéria, Laura De Vison & Roberta Close as trans do show business. Não iriam estampar a imagem de uma travesti cafetina da prostituição trans da Mem de Sá que naquela época ainda era um lugar de oficinas de conserto de automóveis de hotéis de gays e de travestis. Então estava  fora de cogitação colocar imagens da Luana na rua se prostituindo.

Comecei a pensar que poderia fazer pelo menos umas fotos de capa. Essas fotos não tinham a ver com o ensaio diretamente. Seriam mais requintadas sem representar a prostituição e poder ser exibidas nos jornais, revistas e na internet mas a imprensa gay também: o Mix Brasil, a G Magazine etc. não estavam afim de dar espaço pro ensaio. A fama da Luana era muito ruim.

Então eu tive a ideia de pegar uma cadeira com espaldar da sala de minha mãe, levar para frente dos Arcos da Lapa e tirar uma foto da Luana ali sentada no entardecer como a rainha da Lapa. 

E combinei com a Luana de passar na casa dela pra irmos juntos. Essa foi a única vez que eu fui na casa dela. Quando cheguei tinha uma trans muitíssimo famosa da noite paulistana que estava hospedada na casa dela maquiando e montando a Luana. 

Esse processo demorou tanto e no Rio era verão, então o tempo virou rapidamente e caiu uma imensa tempestade. Luana virou-se para mim e falou “você tem pé frio hein?” Na hora me deu um impulso eu disse para ela “Não sou! pega essa canga de oncinha aqui do teu sofá, fulano por favor segura ela aqui”  Peguei a cadeira muito bonita da sala de jantar da minha mãe, Ela sentou ali. Na casa dela havia um gato pequeno, muito gracioso mas se ele não queria fazer alguma coisa e você queria forçar, ele virava uma onça. Pus gato no colo da Luana sob protestos, ela achou que ia estressar o gato pois sabia do temperamento dele. Mas eu insisti e o flash da câmera era muito forte. Me aproximei e comecei a fotografa-la com um gato no colo. 

Nos primeiros takes tanto o gato quanto Luana olham para câmera  meio inexpressivos e depois o gato começa a morder e arranhar a Luana e a justiça seja: ela teve uma presença de espirito incrível porque carregou o gato pequeno na mão dela e interagiu com ele: fez uma pose de felina feroz que combinou com a maquiagem e a roupa que ela usava. aquela foto ficou incrível. 

Com a foto dela com gato eu furei a imprensa brasileira eu pus uma travesti da prostituição de rua estampada num jornal chique do Rio de janeiro: colunista  Heloísa Tolipan gostou da imagem e deu uma nota grande na coluna dela e depois só restou O Globo também por imagem que era um close do decote da Luana toda arrumada com um vestido todo de lamê e uma corrente de ouro grossíssima com um medalhão de ouro usado pelas cafetinas. Eu fiz o plano só do decote com essa joia incrível e foi publicado numa coluna do O Globo.

Mais uma vez eu pus na grande imprensa brasileira uma lgbt+ sem o olhar heteronormativo dos fotógrafos e repórteres heterossexuais que só viam exótico e marginal, sujo, doente etc.

Depois eu fiz a foto dela como capa para aparecer na imprensa na frente dos Arcos da Lapa. Que ficou igualmente boa. 

Vernissage

COLOCAR RESTANTE DAS FOTOS….

Clipping


Luana Muniz, A Rainha da Lapa no Festival Encontro da Imagem em Braga Portugal

A exposição ficou dois meses em cartaz na LGC Arte Contemporânea no Rio e durante o FotoRio eu fui chamado pra uma leitura de portfólio e fui convidado Por Tereza Siza para expor a Rainha da Lapa nos Encontros da Imagem em Braga, Portugal. A exposição foi feita numa galeria que pertencia a um jovem casal que me receberam, me acolheram e foram absolutamente maravilhosos comigo. Para Portugal eu levei imagens gigantescas porque a galeria era muito grande e eu tinha que ocupá-la. Então imprimi uma parte das imagens em vinil adesivo e foi colocado em PVC gigante com 2 metros no lado maior. E uma outra parte eu levei em papel da exposição como foi montada no Rio. Lá também a Luana causou um reboliço e foi a sensação do festival,  a secretária da cultura foi ver a expo, as pessoas ficaram muito curiosas porque a Luana ela é muito exótica, grande e expressiva. A Luana entendeu o que eu queria e jogou o meu jogo, e eu joguei o jogo dela, e a mágica aconteceu. A exposição ficou lá e foi um sucesso imenso saiu na primeira página do jornal da cidade uma foto grande dela em destaque.

Vernissage

Clipping


Mas adiante os dois curadores e produtores do Turim Foto Festival estavam no Rio porque eles têm uma ligação com o Rio e eu tive a oportunidade de mostrar o ensaio. Gostaram tanto que me convidaram pra expor no Turin Foto Festival e queriam que a expo fosse exposta no castelo. Já que era a rainha da Lapa seria exposta num castelo.

Esse festival foi dedicado aos fotógrafos brasileiros emergentes e para mim foi uma honra integrar o grupo eu me senti muito humilde diante de tantos mestres, fotógrafos importantes.

Mas aconteceu um imprevisto: minha mãe teve uma pneumonia muito forte ficou fraca e quem cuidava dela era eu. E eu não tive coragem de largar minha mãe: a vida é mais importante que a arte, então eu fiz oito fotos num tamanho 40 por 50 sobre um suporte de foanboard e mandei para Itália. E não tinha expectativa nenhuma que oito fotos iriam sair do anonimato.

Mas aconteceu uma coisa imprevista e maravilhosa o festival pedia que cada fotógrafo fizesse uma galeria virtual com as imagens e fiz a galeria. O festival fez uma galeria das imagens mais visualizadas as primeiras quatro mais vistas eram da Luana. Isso foi uma vitória a grande imprensa brasileira e a imprensa gay deram bastante no notas com fotos falando de mim e da Luana e mais uma vez eu tive êxito com essa exposição.

Vernissage

Mídia


Depois que já havia 10 anos que a exposição da Luana havia sido exibida na galeria LGC Arte Contemporânea de o dono da galeria doutor Gama me ligou, eu já estava morando em São Paulo faz tempo, e me convidou para participar de uma exposição coletiva que ele iria fazer com as obras que ele considerava as melhores que já havia exposto na sua galeria, entre elas a rainha da Lapa. Eu fiquei muito honrado com isso e fui ao Rio para ver a exposição, onde eu pude encontrar meus colegas, amigos e rever a minha obra montada na parede maior da galeria.

Vernissage

Mídia


Mas adiante os dois curadores e produtores do Turim Foto Festival estavam no Rio porque eles têm uma ligação com o Rio e eu tive a oportunidade de mostrar o ensaio. Gostaram tanto que me convidaram pra expor no Turin Foto Festival e queriam que a expo fosse exposta no castelo. Já que era a rainha da Lapa seria exposta num castelo.

Esse festival foi dedicado aos fotógrafos brasileiros emergentes e para mim foi uma honra integrar o grupo eu me senti muito humilde diante de tantos mestres, fotógrafos importantes.

Mas aconteceu um imprevisto: minha mãe teve uma pneumonia muito forte ficou fraca e quem cuidava dela era eu. E eu não tive coragem de largar minha mãe: a vida é mais importante que a arte, então eu fiz oito fotos num tamanho 40 por 50 sobre um suporte de foanboard e mandei para Itália. E não tinha expectativa nenhuma que oito fotos iriam sair do anonimato.

Mas aconteceu uma coisa imprevista e maravilhosa o festival pedia que cada fotógrafo fizesse uma galeria virtual com as imagens e fiz a galeria. O festival fez uma galeria das imagens mais visualizadas as primeiras quatro mais vistas eram da Luana. Isso foi uma vitória a grande imprensa brasileira e a imprensa gay deram bastante no notas com fotos falando de mim e da Luana e mais uma vez eu tive êxito com essa exposição.

Vernissage

Mídia


Interiores, 2012

Linha de Fuga

Uma investigação sobre luz, silêncio e presença, registrada em interiores onde o tempo parece suspenso.

Presenças

Entre ruas e distâncias, a série acompanha deslocamentos cotidianos e encontros breves, transformando a paisagem em memória.

Matéria Recente

Retratos construídos com delicadeza, revelando gestos, pausas e histórias que permanecem além do instante fotografado.

Title 4

Trabalhos recentes que aproximam arquivo e experiência, reunindo fragmentos urbanos, corpos e espaços em constante transformação.

Interiores, 2012

Linha de Fuga

Uma investigação sobre luz, silêncio e presença, registrada em interiores onde o tempo parece suspenso.

Presenças

Entre ruas e distâncias, a série acompanha deslocamentos cotidianos e encontros breves, transformando a paisagem em memória.

Matéria Recente

Retratos construídos com delicadeza, revelando gestos, pausas e histórias que permanecem além do instante fotografado.

Title 4

Trabalhos recentes que aproximam arquivo e experiência, reunindo fragmentos urbanos, corpos e espaços em constante transformação.

Arquivo Vivo

Fragmentos de uma trajetória construída entre silêncio, luz e presença.

Pedro Stephan

Fotografia, memória e tempo reunidos em uma retrospectiva visual.

Sobre o fotógrafo

Pedro Stephan é fotógrafo e constrói, entre imagens, uma trajetória marcada por silêncio, matéria e atenção aos detalhes do cotidiano.
Cada imagem guarda um tempo, um gesto e uma presença.
John Doe

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